Meu lugar

 


    Pensando sobre esse 8 de março voltei ao momento que tirei essa foto. Foram 2 horas de escalada sem o mínimo preparo físico e sobrando sedentarismo, no meio do caminho tive vontade de chorar e desistir, parecia mais fácil. No entanto continuei, cheguei ao topo da pedra e encontrei a paisagem que em um pequeno recorte está nessa foto. 

    E o que tudo isso tem a ver com a minha experiência individual de tornar-me mulher? TUDO! 

    Hoje, uma mulher adulta e capaz de olhar para atrás, percebo que desde sempre eu estive cercada por muitas figuras femininas que se comportavam de modo distinto, mas havia algo de comum entre esses diferentes modos de viver e que para mim foi nomeado há pouco tempo. Foi a partir da minha experiência de tornar-me mulher que consegui nomear o que é que me aproxima dessas mulheres: 
a sensibilidade e a potência.

    A sensibilidade de perceber "um algo a mais" nas pessoas, nas oportunidades, nas dificuldades, no desespero e no vácuo; a sensibilidade de permitir-se experimentar novas possibilidades de viver mesmo quando parece que "alguém maior" já deu as cartas do seu próprio destino. Escrevendo agora sobre isso me lembrei daquela novela "Senhora do Destino" em que a personagem principal refletia exatamente essa sensibilidade e potência para transformar e enfrentar a própria vida e a dos que o cercam (claro que com uma dose de arte necessária para dar vida a um enredo televisionado). 

    A potência tem o papel de dar voz a essa sensibilidade, de concretizar toda essa percepção através dos mais variados papéis que nós mulheres podemos desempenhar: profissional, mãe, companheira, amiga, filha, neta, artista, educadora, conciliadora e etc. Tenho pra mim que a potência é o que não me fez desistir da escalada, que me levou ao topo do que eu havia me proposto a fazer, mas as vezes a potência pode também nos mostrar que não vale a pena, que a vista não seria tão bonita assim. 
Neste meu caso, valeu.

    Mas, eu não entenderia de fato qual é o meu papel quanto mulher na sociedade se não exercitasse uma boa dose de crítica, até mesmo na sensibilidade e na potência, habilidades que eu tanto admiro. A disponibilidade que nós mulheres somos levadas a exercer - ainda como um reflexo de toda a violência da nossa trajetória - pode atrapalhar a clareza dos limites entre exercer a nossa liberdade e negligenciá-la.

    E nessa loucura de tornar-se, ser, reinventar-se trilho o meu caminho como mulher, mãe, esposa, profissional e todos os outros incontáveis e por vezes invisíveis papéis que exercemos nessa vida. Mas, mantenho algo em comum entre todos eles: não me permito ficar onde me sinto sufocada e invisível. Se para permanecer em algum desses papéis preciso abrir mão de mim, então esse lugar não me cabe.

    Não é só um ato revolucionário para o feminismo, mas um ato de respeito com a minha história e como pretendo construí-la.

Com carinho, La.


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