A psicoterapia e as cobranças de ser perfeito

    São frequentes as queixas que recebo das pessoas que fazem psicoterapia e que convívio de serem cobradas por seus familiares, amigos, colegas de trabalho e companheiros que adotem uma postura mais serena, assertiva e resolutiva em sua vida, utilizando a justificativa de que é para isso que se faz psicoterapia, não é mesmo? 

    As pessoas que enfrentam o processo de psicoterapia com seriedade buscam, na maior parte das vezes, compreender melhor a sua história, emoções e experiências, e não provar o que quer que seja! O sentimento de cobrança pode, inclusive, despertar a dúvida (mais uma) sobre si mesmo e a capacidade de cuidar de si. 

    Esperar que alguém esteja preparado para lidar com toda e qualquer adversidade da vida, reagir adequadamente e jamais 'surtar' é a prova de que a saúde mental na nossa sociedade tornou-se apenas mais um produto que deve receber de zero a cinco estrelas de avaliação. Quanto mais as pessoas se comportam de maneiras "aceitáveis" e se isso está relacionado com a variável da terapia, maior a avaliação e melhor a percepção social sobre o processo de psicoterapia. Infelizmente, fazer psicoterapia virou um status social que ridiculariza o sofrimento psíquico e emocional e estabelece um escopo comportamental que é esperado de quem revela fazer uso desse serviço.

    É ridiculamente engraçado pensar sobre isso, porque me afeta como pessoa, mãe, psicóloga e também analisanda. Há uma expectativa silenciosa de que eu saiba como reagir quando alguém morre, que eu consiga entender prontamente que a morte faz parte da vida e console os demais, afinal sou psicóloga. Os dilemas familiares então, preciso tirar de letra. A relação com o meu filho, nem se fala, a qualquer bronca ou impaciência de minha parte eu escuto um "mas cadê a psicologia infantil". É exaustivo e desumano. Com o tempo é esperado que a partir da possibilidade de revisitar a nossa história e compreender com mais clareza as nossas relações, tenhamos mais recursos psíquicos e emocionais para lidar com as situações da vida, mas isso está longe de ser um robô resolutivo que esperam de nós. Esse seria o famoso "faço terapia porque quem deveria fazer não faz".

    Não posso deixar de mencionar como essa cobrança - seja ela manifesta ou silenciosa - está relacionada com o modo que já nos sentimos, como se tivéssemos que provar para nós mesmos que está "dando certo". Esquecemos que estar em uma posição de ser cuidado (sim, é isso que acontece na psicoterapia, com muito custo, deixamos alguém cuidar de nós e de maneira ativa também aprendemos a nos cuidar) exige um certo abandono de si mesmo, que para revisitar a nossa história é preciso coragem e uma dose de desespero, e que mesmo a menor mudança que você for capaz de reconhecer é um resultado que vale a pena apreciar. E tudo isso não está aparente para todos, e as vezes nem mesmo para você.

    Por fim, mas longe de terminar essa reflexão internamente, assumo a ousadia de te encorajar a enfrentar essas solicitações de responder a esses posicionamentos esperados para quem "tá com a terapia em dia". A sua saúde psíquica, emocional e mental é mais do que um status contemporâneo, é na sua individualidade e na intimidade das suas mazelas e esperanças que você existe, e não tem escopo nesse mundo que dará conta da complexidade das emoções e comportamentos humanos. Encarar uma psicoterapia não deve ter a função de te moldar e te transformar em uma pessoa que não causará incômodos e dores aos outros. Assim como as rosas (a velha história dos espinhos, porque sim) precisam de seus espinhos para se proteger e reter água, nós precisamos de todas as nossas partes para sobreviver. Mas esse é um papo pra outro texto!  

Com carinho, La 💫
  

   

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